29
jun
09

Ambiente físico propício à gestão do conhecimento

clubEquacionar a necessidade de privacidade e interação é um desafio da concepção dos ambiente de trabalho da atualidade, especialmente diante da demanda de espaços que permitam a convivência e contato constante, que possibilitem a troca de conhecimento de maneira desimpedida e, por outro lado, certos tipos de trabalho que exigem concentração, sigilo e respeito à privacidade.

A polêmica privacidade vs. interação é apimentada quando o discurso da “necessidade de abrir os espaços e ao mesmo tempo possibilitar àqueles que necessitam salas fechadas” é utilizado como justificativa para, no fundo, fazer uso da diferenciação do tratamento dos ambientes como símbolo de status e indicação da posição hierárquica. Nos Estados Unidos por exemplo, a expressão corner office (escritório de quina, com duas faces envidraçadas) é freqüentemente utilizada como símbolo de ascenção profissional.

Concordo que haja diferentes necessidades de espaço físico conforme a atividade exercida e as características da equipe. O que não concordo é que as verdadeiras intenções do tratamento diferente dos espaços, com “salas para os chefes e baias apertadas para o staff” – opinião de um colaborador em pequisa de opinião sobre o ambiente físico de trabalho que realizei – esteja ocultada por um discurso de necessidade de maior interação entre as áreas.

A razão porque discordo desse tipo de acobertamento não é apenas por uma questão de posicionamento ético através da clareza das intenções, mas também devido à incoerência entre discurso e prática, entre a declaração das razões e a cultura organizacional de fato vigente, entre a gestão do conhecimento almejada e as práticas taylorista anacrônicas.

Um aspecto da gestão do conhecimento é tornar explícito o que é tácito nas atividades profissionais do dia-a-dia, e para isso é preciso que haja não apenas oportunidades para compartilhamento do conhecimento, mas também um clima de confiança e distribuição do poder – empowerment.

Se a distribuição do poder é concentrada, a tendência é a pessoa reter conhecimento como fonte de poder, se a distribuição do poder é diluída na equipe/grupo, a tendência é compartilhar para aumentar o poder da equipe/grupo. Esse processo faz parte do amadurecimento das equipes e está relacionado à mudança de cultura.

Já se sabe que, quanto mais maduras as equipes de trabalho e suas lideranças, maior a necessidade de implantar uma gestão participativa, na qual os talentos sejam de fato valorizados em suas iniciativas, opiniões e resultados. A participação, em maior ou menor grau, já é uma realidade na gestão de algumas empresas. No entanto, um dos processos decisórios que carece de maior participação dentro das empresas diz respeito à concepção do ambiente físico de trabalho.

Não estou me referindo a organizar uma votação para escolher a cor do refeitório, não é isso. Estou falando da utilização de recursos de concepção do ambiente construído que viabilizem a participação dos usuários, através de pesquisa de opinião, entrevistas, workshops e outros tipos de instrumentos relacionados à avaliação pós-ocupação (APO), que auxiliem na construção conjunta de soluções com os profissionais de projeto, e criem um clima de participação e comprometimento, ao mesmo tempo em que auxilia na consolidação da cultura organizacional. Conjugar as diferentes necessidades quanto ao local de trabalho poder ser fruto do consenso da própria equipe, com orientação técnica do profissional de design.

O projeto participativo já é uma realidade em vários setores: urbanização, revitalização de áreas degradas, espaços comunitários, dentre outros. Tais iniciativas têm demonstrado na prática o maior comprometimento dos seus participantes na adequada implantação do projeto e em sua manutenção, reduzindo e até eliminando a incidência de vandalismos e depredações, além de fortalecer o senso de comunidade.

Nas empresas, há casos de implantação de espaços de convivência e saúde – tais como praças e sala de ginástica – que permanecem abandonados ou subutilizados. Há outros tantos casos nos quais a participação dos funcionários na identificação das reais demandas possibilitou criar engajamento e cultura em torno da concepção, implantação e utilização dinâmica de tais ambientes, contribuindo na satisfação, motivação e produtividade.


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Sou Ana Paula Simões, pesquisadora da relação pessoa-ambiente em diversos contextos de interrelação. Postarei aqui informações, curiosidades, pesquisas e ferramentas interessantes na área. Seja bem-vindo(a)!

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